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Uma conversa sobre operação, tecnologia e liderança em tempos de complexidade

Existe uma diferença silenciosa — e decisiva — entre empresas que usam tecnologia e empresas que operam com inteligência.

À primeira vista, ambas falam de dados, plataformas, sensores, integração, dashboards. Mas, quando olhamos mais de perto, percebemos que só algumas conseguem transformar tudo isso em decisão prática, redução real de risco e ganho operacional consistente.

É nesse ponto que a tecnologia deixa de ser promessa e passa a ser método.

Para entender melhor esse cenário, conversamos com Rodrigo Ourique, Diretor Comercial da Powerfleet Brasil, que compartilha reflexões construídas a partir de anos de atuação próxima às operações, projetos complexos e decisões tomadas longe do discurso fácil — muitas vezes no campo, no detalhe e no enfrentamento direto dos problemas reais.

Nesta entrevista, falamos menos de features e mais de como pensar operação, como ler dados e como liderar em ambientes onde errar custa caro.

Entrevistador
Rodrigo, antes de entrarmos em tecnologia, queria começar pelo começo. Quando você olha para as operações hoje — especialmente frotas, ativos e ambientes críticos — qual é, na sua visão, o problema central que as empresas ainda não resolveram?

Rodrigo Ourique
O maior problema não é falta de tecnologia. Isso é importante dizer logo de cara.

Hoje, praticamente qualquer empresa consegue comprar sensores, sistemas, câmeras, plataformas. O acesso existe. O ponto é outro: as empresas ainda não sabem exatamente o que fazer com tudo isso de forma integrada.

O que vemos muito na prática são operações cheias de dados, mas pobres em decisão. Há informação demais, alerta demais, relatório demais — e clareza de menos.

Então, o problema central não é técnico. É estratégico e operacional. Falta uma leitura clara de quais decisões precisam ser tomadas, com que frequência, por quem e com base em quais indicadores.

Entrevistador
Ou seja, o problema não está no dado em si, mas na forma como ele é usado?

Rodrigo Ourique
Exatamente. Dado bruto não resolve nada. Dado fora de contexto pode até atrapalhar.

Uma operação não precisa saber tudo o tempo todo. Ela precisa saber o que importa agora. E isso muda conforme o tipo de ativo, o risco envolvido, o momento da operação.

Quando isso não está claro, a tecnologia vira um ruído constante. E ruído cansa as pessoas, gera desconfiança e acaba sendo ignorado.

Entrevistador
Você mencionou que o acesso à tecnologia já não é mais o grande desafio. Onde, então, as empresas mais erram quando decidem investir nesse tipo de solução?

Rodrigo Ourique
O erro mais comum é começar pelo “o que” antes de definir o “por quê”.

A empresa compra uma solução porque ouviu falar bem, porque o mercado está usando, porque parece moderna. Mas não para para responder perguntas básicas, como:

– Qual problema operacional queremos resolver primeiro?
– Onde está hoje o maior risco da operação?
– Que decisão precisa ser tomada mais rápido do que é hoje?

Sem isso, a tecnologia entra como um corpo estranho. Ela até funciona, mas não se conecta com a rotina real das pessoas.

Entrevistador
E isso vale tanto para pequenas quanto para grandes operações?

Rodrigo Ourique
Talvez até mais para as grandes.

Operações maiores têm mais camadas, mais áreas envolvidas, mais interesses. Se não houver uma estratégia clara, cada área puxa o dado para um lado. O resultado é um sistema caro, subutilizado e, muitas vezes, questionado internamente.

Quando a tecnologia é bem pensada, ela simplifica decisões. Quando é mal pensada, ela complica o que já era complexo.

Entrevistador
Na prática, o que muda quando uma empresa passa a tratar dados como ferramenta de decisão e não apenas como controle?

Rodrigo Ourique
Muda o comportamento. E isso é o mais importante.

Quando o dado é bem contextualizado, ele deixa de ser visto como vigilância e passa a ser visto como apoio. Apoio ao gestor, ao operador, ao time de manutenção, ao time de segurança.

Por exemplo:
Se um alerta aponta um comportamento de risco, mas vem acompanhado de contexto — horário, tipo de operação, condição do ativo — ele vira um ponto de conversa, não uma acusação.

A partir daí, as pessoas começam a confiar no sistema. E confiança é o que faz a tecnologia realmente entrar na cultura da empresa.

Entrevistador
Então existe também um trabalho humano e cultural forte por trás?

Rodrigo Ourique
Sem dúvida. Tecnologia nenhuma resolve sozinha um problema humano.

O dado precisa ser traduzido. Precisa virar narrativa, explicação, aprendizado. Quando isso acontece, você começa a ver mudanças reais: menos improviso, menos reação tardia, mais prevenção.

E isso vale para segurança, custo, produtividade, manutenção — tudo.

Entrevistador
Rodrigo, em vários momentos você traz a ideia de que tecnologia sozinha não resolve. Onde, então, acontece a virada de chave entre promessa e resultado?

Rodrigo Ourique
A virada acontece quando a tecnologia vem acompanhada de serviço de verdade.

E quando falo de serviço, não é suporte reativo ou atendimento quando algo quebra. É serviço no sentido mais estratégico da palavra: gente experiente olhando a operação junto com o cliente, ajudando a interpretar dados, priorizar ações e ajustar o uso da tecnologia à realidade do dia a dia.

Na prática, é isso que transforma um sistema em ferramenta de decisão.

Entrevistador
Você pode explicar melhor essa diferença? Onde exatamente o serviço entra no jogo?

Rodrigo Ourique
Claro. Vou dar um exemplo simples.

Imagine uma operação que recebe dezenas de alertas por dia: eventos de condução, falhas mecânicas, desvios de rota, ociosidade. Se alguém simplesmente entrega isso em forma de relatório, o gestor fica sobrecarregado. Ele não sabe por onde começar.

O serviço entra para responder perguntas como:
– O que disso é crítico agora?
– O que pode esperar?
– O que é recorrente e o que é pontual?
– O que é comportamento e o que é problema de processo?

Esse filtro faz diferença prática. Na Coopertrans, por exemplo, o acompanhamento em tempo real substituiu um processo que antes levava de 15 a 20 dias para gerar ações corretivas. O resultado foi uma redução de 80% nos acidentes de trabalho, 25% nos custos de manutenção e 8% no consumo de combustível.

Entrevistador
Então estamos falando de uma operação mais assistida, menos solitária?

Rodrigo Ourique
Exatamente. Operações críticas não podem ser solitárias.

Quando uma empresa decide operar baseada em dados, ela precisa de apoio contínuo, especialmente no início. É nesse momento que muitos projetos falham: o sistema é implantado, os dados começam a chegar, mas ninguém ajuda a transformar aquilo em rotina operacional.

A operação assistida encurta esse caminho. Ela ajuda o cliente a entender o que olhar, como reagir e, principalmente, como evoluir o uso da tecnologia ao longo do tempo.

Entrevistador
Isso exige um conhecimento muito profundo da realidade de cada cliente, certo?

Rodrigo Ourique
Sem dúvida. Não existe solução genérica para operações complexas.

Cada vertical tem suas particularidades. Cada empresa tem sua cultura, sua maturidade, seus riscos específicos. Um bom serviço respeita isso. Ele não força um modelo pronto — ele adapta.

Por isso, a escuta é tão importante quanto a tecnologia. Às vezes, a melhor recomendação não é usar mais dados, mas usar melhor o que já existe.

Entrevistador
Falando em verticais, como essa visão se aplica a operações tão diferentes entre si?

Rodrigo Ourique
O ponto comum entre todas as verticais é a necessidade de previsibilidade. O que muda é onde está o risco principal.

Em algumas operações, o foco é segurança. Em outras, é disponibilidade de ativos. Em outras, é custo, imagem, compliance ou continuidade do serviço.

Quando você entende isso, a tecnologia deixa de ser genérica e passa a ser cirúrgica. Você usa os dados certos, do jeito certo, para responder às perguntas que realmente importam para aquela operação.

Entrevistador
E o que acontece quando essa leitura não é feita?

Rodrigo Ourique
Acontece desperdício.

Desperdício de investimento, de tempo e de energia das pessoas. O sistema até funciona, mas não gera impacto relevante. E quando não há impacto claro, o projeto perde força internamente.

Por outro lado, quando o uso é bem contextualizado, os resultados aparecem rápido — e o próprio time do cliente passa a defender a solução.

Esse movimento ficou muito claro em operações como a da HP Transportes, que ao integrar telemetria ao programa PRIME alcançou uma economia operacional superior a 30%, além de reduzir em 34% os eventos por km rodado e evitar a emissão de mais de 1 milhão de kg de CO₂ 

Na Urbi Mobilidade Urbana, o impacto foi igualmente rápido: redução de 33% nos sinistros em menos de 6 meses, com mais de 90% dos motoristas já operando dentro do novo padrão de direção 

Entrevistador
Quando se fala em ROI, muita gente ainda pensa apenas em economia direta. Essa visão é suficiente?

Rodrigo Ourique
Ela é limitada.

Economia é importante, claro. Mas o verdadeiro ROI, especialmente em operações críticas, está em redução de risco, continuidade e capacidade de antecipação.

Evitar um acidente grave, uma parada não planejada ou uma falha operacional tem um valor que nem sempre aparece imediatamente na planilha — mas que faz toda a diferença no médio e longo prazo.

Quando a Urbi reduziu 33% dos sinistros e ainda registrou 25% de economia no consumo de lonas de freio, além de aproximadamente 10% de melhora na performance de combustível (km/l), o impacto não foi apenas financeiro — foi operacional e cultural.

Da mesma forma, a HP conseguiu estruturar um modelo que não apenas reduziu eventos críticos, mas gerou bônus aos motoristas equivalentes a um 14º salário, fortalecendo retenção e engajamento.

Empresas mais maduras entendem isso. Elas não olham só para o quanto economizam, mas para o que deixam de perder.

Entrevistador
Então o ROI também é estratégico?

Rodrigo Ourique
Totalmente. ROI é sobre tomar decisões melhores.

Quando você tem dados confiáveis, contexto e apoio especializado, você reduz improviso. E improviso é caro. Muito caro.

Entrevistador
Rodrigo, quando falamos de dados, tecnologia e controle, é comum surgir uma resistência natural das pessoas. Como lidar com isso na prática?

Rodrigo Ourique
Essa resistência é legítima. E ignorá-la é um erro grave.

Nenhuma operação funciona só com sistemas; ela funciona com pessoas. Quando o dado é apresentado apenas como fiscalização, ele gera medo, defesa e até sabotagem silenciosa. Já vimos isso acontecer muitas vezes.

A virada acontece quando o dado passa a ser usado como instrumento de aprendizado, não de punição.

Na HP, essa abordagem permitiu reduzir drasticamente eventos como freada brusca e ultrapassar a marca de mais de 1 milhão de eventos evitados por mês, transformando dados em reconhecimento positivo de comportamento.

Na Urbi, durante o piloto com 80 motoristas, mais de 90% passaram a operar alinhados ao novo padrão estratégico em poucos meses, mostrando que mudança cultural acontece quando o dado é bem conduzido.

Entrevistador
Como essa mudança se materializa no dia a dia?

Rodrigo Ourique
Com conversa, contexto e constância.

Um alerta isolado não diz nada. Mas quando você mostra padrões, explica o impacto e envolve o operador na solução, o dado deixa de ser um dedo apontado e vira um espelho.

A partir daí, o comportamento muda de forma orgânica. Não porque alguém mandou, mas porque a pessoa entende o porquê.

Entrevistador
Nesse cenário, qual passa a ser o papel da liderança?

Rodrigo Ourique
A liderança precisa mudar junto.

Gestores que operam com dados não podem decidir só por intuição — mas também não podem se esconder atrás da tecnologia. O dado apoia a decisão, não substitui o julgamento.

O bom líder é aquele que sabe fazer as perguntas certas:
– O que esse dado está me dizendo?
– O que ele não está dizendo?
– O que depende de processo, de pessoa ou de contexto?

Quando a liderança assume esse papel, o time acompanha.

Entrevistador
Isso exige um perfil diferente de gestor?

Rodrigo Ourique
Exige abertura. Mais do que técnica.

É preciso aceitar que o dado pode contrariar percepções antigas. Pode mostrar ineficiências onde antes havia conforto. E isso nem sempre é fácil.

Mas empresas que crescem de forma sustentável são aquelas que preferem a verdade operacional ao conforto da suposição.

Entrevistador
Olhando para frente, como você enxerga o futuro das operações baseadas em dados?

Rodrigo Ourique
Eu não vejo um futuro apenas mais tecnológico. Vejo um futuro mais consciente.

Mais consciente sobre riscos, sobre pessoas, sobre impacto financeiro e reputacional. A tecnologia vai continuar evoluindo, mas o diferencial estará em quem souber orquestrar tudo isso com inteligência.

Não se trata de ter mais dados, e sim de ter dados melhores, bem interpretados e bem usados.

Entrevistador
Se você tivesse que deixar uma mensagem final para líderes que estão passando por esse momento de transformação, qual seria?

Rodrigo Ourique
Que não encarem tecnologia como um atalho.

Ela é um caminho — e exige método, disciplina e gente boa envolvida. Quando bem usada, ela não só melhora números, mas muda a forma como a empresa pensa, decide e se relaciona com seus próprios times.

No fim do dia, operações melhores são aquelas que aprendem com os próprios dados. E aprendizado é um processo contínuo.

Transformar dados em decisão não é um projeto pontual. É uma mudança de mentalidade.

Os resultados falam por si:

  • 30%+ de economia operacional na HP 
  • 33% de redução de sinistros na Urbi 
  • 80% de redução de acidentes de trabalho na Coopertrans 

Mais do que números isolados, esses indicadores mostram que quando dados, serviço e cultura caminham juntos, a transformação deixa de ser promessa e passa a ser prática.


A conversa com Rodrigo Ourique revela algo que vai além da tecnologia: a maturidade de entender que eficiência, segurança e resultado não nascem de sistemas isolados, mas da combinação entre estratégia clara, serviço qualificado e pessoas bem conduzidas.

Em um cenário onde operar ficou mais complexo, pensar melhor passou a ser uma vantagem competitiva.

E talvez esse seja o maior diferencial de quem escolhe trilhar esse caminho com consistência.

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